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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A semente da incerteza


Nessa terra eu semeei meus grãos, por mais que eles nunca tenham vingado, eu os plantei com minhas próprias mãos. Tão valente fui outrora, ao ter continuado plantando-os, fruto de um infortúnio tão seguro, tolo fui e admito!Derramando lágrimas em chuva na colheita seca, embalsamado na esfera da cegueira, mas agora vejo, foi apenas mais uma ilusão! Nunca menti, nem ao menos ocultei minhas verdades, pois a todas as suas perguntas eu obtive respostas claras. E agora, verdade seja dita, em voz aflita a mim mesmo, pois sua presença permanece mórbida e sombria:-Nem ao menos o meu coração você conseguiu fazer repousar...Acalma minha alma, mas aflige o meu coração!Da minha amada plantação, apenas colhi frutos podres, tão indecisos frutos, cobertos de magoa e maldição! Ainda fico ali sentado arando a terra seca, hora após hora, imaginando para onde foi aquela aura dourada, da qual me tornou um tolo apaixonado?!As horas se passam e eu ainda penso se valeu mesmo à pena,Sorrir... Sofrer... Chorar...-Oh... Terra ingrata... Seca e áspera...  Onde estará minha donzela?Sumiu por entre os secos lençóis de água, com seus lábios de pedra, mal tive tempo de perguntar, se aquele afável beijo foi algo claro, pois foi tão quente e úmido!Talvez até pudesse sentir algo pulsar em teu peito, ou seria apenas gazes, causados pelo vinho que bebera?-Hã, senhores do engenho! Desejo-lhe mil rosas cobertas de luxuria!Tão lúcido e melancólico digo isso em voz aflita a todos os reis da manufatura.-Que aqueles que te amam tanto, te velem! Pois deste cargo eu me demito!Um dia fui escravo da minha paixão, semeava meus amados grãos, mas agora não sou mais um infeliz escravo. O sol perplexo indaga minhas palavras:-Não é mais um infeliz, fiel escravo?Onde estará sua espada se não na tua bainha?Eu estou enlouquecendo, com sementes secas de incerteza que até o sol escaldante sobre os meus miolos começa a me questionar. Tudo está seco ao meu redor e não existem lágrimas em meus olhos capazes de expressar minha dor e loucura.As flores morreram, eu rezo para que esse sol repouse e assim à noite eu possa descansar, porém a fome não me deixaria dormir, então busco incansavelmente algo para saciar minha fome, alimento-me de raízes secas.Não sei mais para quem orar, o Senhor do sertão esqueceu-se daqueles tolos escravos, apaixonados pela terra seca recheada de sementes de incerteza.
O mundo gira e não posso descrever a cor das horas, mas posso dizer que não são úmidas, espero que logo os céus derramem água para que eu possa nadar na solidão ao invés de morrer no sol desse sertão!


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