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domingo, 17 de maio de 2015

A estranha da avenida

A fumaça evolava acima de sua cabeça
E ela parecia um reflexo estático mecanizado
Talvez por causa do gélido ar daquele dia cinzento
Seus olhos de um tom esverdeado fitavam a rua ofuscados
Pelo brilho das luzes dos carros que trafegavam pela avenida.
A brasa acabou em cinzas no chão,
junto a uma bituca com marca de batom de cor rubi
Levou a mão a bolsa e retirou um prateado frasco,
que levou a boca sutilmente enquanto escorava-se contra a parede.
Resolvi atravessar a avenida e me aproximar,
Entrei na loja de bebidas e comprei um maço de cigarros mentolados
Sai desembalando-o e retirando um, parei de fronte a formosa moça,
E levei o cigarro a boca enquanto falava:
- Tu tens fogo?
Com uma das sobrancelhas arqueadas, observou-me por um instante,
Levou sua destra até a bolsa e retirou um isqueiro preto,
Fazendo uma chama o levou até a ponta do meu cigarro acendendo-o.
- Obrigado! - falei com um sorriso tosco.
- Por nada, tens um nome? - Ela pronunciou secamente.
- Brandon - Ergui o braço e estiquei a palma da mão em cumprimento.
Ela fitou-me pausadamente, com o braço esticado no ar,
e então ergueu o seu braço junto ao meu em um suave aperto de mãos.
- Me desculpe, mas tenho que ir - Ela disse soltando minha mão.
- Tem algum compromisso nesse exato momento? - Falei meio que sussurrando.
Voltando seu rosto fino e suas bochechas rosadas ela olhou para o meu rosto satiricamente:
- Tem algo em mente? - Falou arqueando novamente sua sobrancelha finamente desenhada.
- Gostaria de beber alguma coisa? - Falei quase sufocando com o brilho dos seus olhos.
- Já bebi! - Ela falou ajeitando a gola do seu casaco azul cobalto - Como pode observar.
"Ela me viu observando-a do outro lado da rua, deve pensar que sou algum maniaco"
- Me desculpe se a ofendi, claramente não foi a minha intensão. - Falei constrangido.
- Sem problemas, o que tem à me oferecer? - falou indiferente.
- Já me desculpei, não precisa ser grosseira - falei enquanto virava-me de costas.
Endireitando a coluna em um levantar de ombros, dei alguns passos a frente, tragando aquele pedaço de morte, finamente desenhado e desenfreadamente comercializado para dentro dos meus pulmões desafetuosos pela vida.
- Ei... - Ela falou em um tom brando - Volte aqui me desculpe - permanecendo escorada contra a parede.
Respirei fundo e ainda com um dos pés no ar, apenas girei a cabeça para trás magoado e receoso:
- Então afaste-se dessa maldita parede e venha comigo!
- Tudo bem! - Falou gargalhando ironicamente e caminhando em minha direção.
- Siga-me, prometo que não sou nenhum maniaco, apenas quero lhe pagar uma bebida! - Falei meio irritado.
Ela permaneceu calada com aqueles olhos invadindo o meu ser, caminhando ao meu lado mecanicamente, quase que friamente, sentia-se a aspereza nos seus passos. O silencio apenas era abalado pelo barulho de seus saltos e minha respiração ofegante e pesada, mal se passavam carros naquela rua, avistava-se poucas pessoas a maioria moradores daquela redondeza.
- Alias, qual o seu nome? - Falei em tom pomposo.
- Alanna, pensei que não lhe importava - Falou ironicamente.
- Claro que me importa, apenas te achei meio estupida - Falei desapercebido
- Ah... é? Então a estupida vai embora, tudo bem? - Parou cruzando os braços e escorando contra uma parede de tijolos.
- M...e... des...culpe... saiu sem querer... - Falei pausadamente aflito, parando também.
- Daqui a pouco vai começar a gaguejar e fazer xixi na roupa de nervoso, não é tão bom galanteador sabia? - Falou sorrindo, mostrando sua arcada superior branca como o interior de um coco.
Desencostando da parede e descruzando os braços, ela caminhou até mim, levantou uma das mãos e agarrou em meu antebraço e saiu andando em minha frente a puxar-me:
- Anda vamos, eu vou te levar agora - Falou enquanto me arrastava.
Caminhamos daquele jeito por duas quadras, eu era como uma criança birrenta sendo arrastada pela mãe e ela uma mãe muito paciente para não me dar uma surra, até que por fim, cansei-me daquele jogo idiota e agitei o braço, fazendo com que ela soltasse-o, assim agarrei sua mão. Passamos por alguns bares e danceterias, mas ela não quis parar, continuava andando calada, enquanto seus saltos ressoavam "ploc, ploc, ploc...".
- Chegamos - Falou arqueando as sobrancelhas e sorrindo.
- Tem certeza? - Falei franzindo a testa confuso.
Estávamos de frente a uma praça muito mal iluminada, com alguns bancos em ruínas, um anjo esculpido em pedra coberto de pichações e algumas roseiras espinhosas e mau cuidadas.
- Sim é aqui mesmo, venha! - Falou puxando a minha mãe rumo ao anjo esculpido.
A segui mutuamente, ela se sentou aos pés do anjo e assim o fiz também, soltou a minha mão e enquanto com uma das mãos segurava a alça de sua bolsa, a outra abria o zíper, afundou a mão em um emaranhado de coisas e retirou o frasco de bebida, destampando-o esticou-o contra o meu rosto.
- Beba! - Falou gentilmente dando uma leve piscada com um dos olhos.
Peguei o frasco de sua mão e virei-o a boca, um liquido amargoso desceu por minha garganta quase que a arranha-la, em uma carreta repulsiva devolvi o frasco a ela e depois disso tudo é um borrão em minha memória.
Com a visão turva, e o corpo adormecido tudo o que eu sentia era algumas pontadas e calafrios, não conseguia me mover,  a minha volta eu via um banco de madeira rustico com o assento apodrecido, e o resto era completa treva e neblina. Tentava incansavelmente mover que seja um músculo qualquer, mas nada se movia, apenas meus olhos que giravam de um lado a outro buscando reconhecer aquele recinto, mas eu não sabia onde estava e nem me lembrava de como fora parar ali, apenas me lembrava do frasco prateado e o gosto amargo que ainda permanecia em minha boca.
Tentava mover meus lábios, gritar por ajuda, mas não havia som, o silencio angustiante me aprisionava naquela escuridão perturbadora, pouco a pouco meus olhos foram se acostumando com a ausência de luz, e assim pude ver a minha volta uma parede de blocos sem reboco, uma corrente em meu pés e algo pastoso sobre os meus braços e pernas.
Respirei profundamente e busquei me acalmar, então me lembrei da garota, da praça escura, e fiquei amedrontado, eu como um homem, posso ser torturado de diversas formas, mas ela é jovem e bela, me desespera pensar nas atrocidades que o mentor por trás disso possa estar fazendo com ela. Não conseguia me mover, e as pontadas como um enxame de formigas se intensificaram sob meu corpo todo, até que lágrimas começaram escorrer pelos meus olhos e novamente tudo se apagou  a minha volta.
Meu corpo estava completamente dolorido e minha pele ardia, sentia as correntes geladas sobre os meus pés imobilizando-os, não havia como move-los, o mesmo ocorria com os meus braços, então me deparei que estava pendurado sobre uma grade de ferro.



(..................................................Continua..............................................................)



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