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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Tempo de despertar

Um desespero me enchia o peito a cada instante que fitava o relógio de parede, os minutos eram ásperos e doloridos ao meu desconhecer, momento a momento as horas saltavam-se escuras e tempestuosas tão tristes como o tempo lá fora nublado e frio. Com os óculos escorregando pelo nariz e um livro nas mãos, eu me curvava a frente encolhida entre as cobertas no sofá, tentando revisar a matéria da prova. Logo já se ouvia um ruido, uma televisão fora de sintonia, um choro de criança junto a um berro de uma vizinha com a outra dialogando pela sacada, em uma especie de telefone sem fio dos tempos modernos. A festa e a reza aqui não tem horário, pode ser cinco da manhã ou dez para meia noite o pastor ora aos céus e o cantor derrama seus lamentos em alguns versos com o violão ao fundo sobre sua amada que o abandonou.
A vida urbana é assim, quando se não tem dinheiro suficiente para comprar uma casa, se vive em um prédio, onde não se precisa de Tv para ter uma ereção, basta apenas ouvir pelas paredes os sons e a imaginação completa as figuras, assim como nos contos eróticos antigamente retratados nas rádios. O individual não existe, ele se funde com os outros indivíduos, dia a dia, você liga os rostos as vozes nas paredes, em apenas em um bom dia é possível nutrir os espaços vagos da sua imaginação observadora.
É cansativo não ter silêncio para se concentrar, estive buscando diversos meios para abafar o barulho, seja com musica clássica ou tentando ler meus livros de estudo em voz alta, o grande problema é o intervalo nas palavras, esse pequeno momento de pausa entre uma palavra e outra, meu cérebro capita todos os ruídos à minha volta misturando-os ao meu estudo. Tenho uma estupenda dificuldade em me concentrar e interpretar aquilo que leio, talvez porque durante os anos no colégio,  eu desperdiçava meu tempo dormindo ou jogando truco, o grande problema atualmente é que aquilo tudo hoje me faz falta. O que naquela idade eu achava estar sendo proveitoso acabou me sendo prejudicial, pois tudo aquilo que fiz questão de intitular como baboseira - Coisa que eu jamais iria usar na minha vida- , hoje me faz falta, e por este motivo me desespero.
Me toca profundamente uma angustia de ter errado e não ter ouvido a voz da experiencia, que seria meus tutores, meus pais, todas aqueles que me cercavam e estavam um salto bem grande a minha frente, com muitas primaveras de experiencias e não aqueles que estavam no mesmo nível intelectual que eu,
Mas agora já não tenho aqueles dias em minhas mãos, portanto não me adianta nada lamentar, pelos livros babados que me serviam de travesseiro, ou pelas conversas avulsas, e até pelas fugidas do colégio. Aquela adrenalina de correr por baixo da janela, enquanto algum amigo me jogava a mochila e eu corria a saltar o muro, me sentia em um filme de ação, mas hoje o que eu vejo é um filme de comedia pastelão!
Agora é correr contra o tempo e recuperar todo o conhecimento que voou por quase duas décadas diante dos meus olhos fechados, abobada pela ânsia de existir, de me transparecer do borrão que eu era, mas no fim me tornou ainda mais transparente, passando pela vida como um sussurro breve e despercebido pelos olhos do mundo, pelos livros e por mim mesma.

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